Crônica | Fantasia Interrompida 0
Senta-te guri. Conto-te algo.
Tu és bom de bola. Como tu, vi poucos. Mas padeces de ti mesmo. Jogar bola é uma coisa. Se eu fosse armar uma equipe pra disputar um torneio de várzea, de cinco contra cinco, tu serias o número 10. Não te tiraria nem sequer um minuto do jogo.
Aqui, tu podes driblar quantos quiseres, fazer gols fantásticos a cada treino. No jogo, eu não te ponho, guri. Um dia te quebram a perna se segues jogando assim. Futebol é como a vida, não se pode achar que sempre é tempo de desfrutá-la. Há de se sofrer, pra conquistar algo. Não sei qual é a tua posição. Se és um cabeça de área que sai pro jogo, ou se és um ponta esquerda. Pra cabeça de área, tu marcas mal. Pra ponta esquerda, voltas demasiadamente.
O futebol irresponsável, preocupado somente com a bola nos pés, é do tempo do teu bisavô. Não ganharam nada assim. Um dia se deram conta que um time é algo coletivo, de trás pra frente. E aí sim, existiu o craque, que sabia a hora de dar um passe de primeira pro lado e a hora de dar lençol incrível no goleiro, mas mesmo assim, esse lençol era por necessidade, sem ele, o gol não sairia.
Amargo como o chimarrão é o futebol. Não adianta colocar açúcar. Perde o sentido. Amanhã tu vens treinar igualmente. Começarás nos reservas como sempre. Não desanime. Um dia entenderás. Há uma bola em campo, pra 22. Não podes tê-la contigo sempre.
Sábado tem jogo, não serás relacionado. Já te adianto. Se eu te colocar no jogo, sei que vamos vencer. Disso não duvido. Mas te colocando, você pode nunca mais voltar a jogar, com medo de entradas que levarias (e é capaz que o mundo perca um gênio do futebol – pensou o técnico).
Asseguro-te que entrarás ao longo do campeonato. Pouco a pouco. Sei que tu não estás entendendo nada agora. Um dia entenderás. Prefiro perder um campeonato a um jogador.
Publicada em 6/1/2009 no Trivela.com